Uma mulher mais jovem entrou no estabelecimento e foi direto para a mesma mesa que ela estava. Danie sentiu o seu perfume e o frio na barriga aumentou. A mulher sentou-se e olhou em volta, nenhuma das duas disse nada. Danie respirou fundo e olhou em seus olhos. Castanhos. Antes de dizer alguma coisa, ela se lembrou de tudo. Tudo aquilo que vinha reprimindo nos últimos dias.
"Oi, Laura." ela disse finalmente.
"Danie..." a mulher fechou os olhos e manteve-se firme. "antes que você diga alguma coisa. Antes que você insista mais uma vez..." cada palavra flertava com Danie, cada palavra era uma lembrança diferente. Ela já não estava mais ouvindo.
Danie olhava o vento balançar o cabelo de Laura. Elas estavam no píer, juntas. O pôr-do-sol atrás dela fazia com que seus olhos revelassem mais do que queriam. Laura sorria, gargalhava. Estava contando mais uma de suas aventuras. Danie só conseguia observá-la e sorrir. Daqueles sorrisos bobos de gente apaixonada. "Vai, me fala o que tá gritando na sua cabeça!" a moça pegou a sua mão. Mas Danie não podia dizer a ela. "Nada, só estou... Tentando imaginar a cena." Riu.
"Danie, você merece alguém melhor do que eu." Laura insistia pela milésima vez. "Não vai dizer nada? Como sempre." Balançou a cabeça.
Elas estavam juntas, no sofá da casa de Danie assistindo a um filme qualquer. Laura estava deitava sobre seu colo quase adormecendo. A respiração dela ficou mais calma, ela olhou para cima e sorriu. Danie sorriu de volta, passou a mão pelo cabelo castanho e elas se olharam por alguns segundos. Perdidas um na outra.
"Você não entende. Essa máscara, você não precisa usá-la comigo." O coração de Danie estava batendo rápido.
"Eu preciso ser assim, Dan. Você não entende, eu vou machucar você."
A barraca azul no meio da mata era pequena, mas o suficiente para que as duas pudessem ficar abraçadas lá dentro. A fogueira queimava do lado de fora e a lua brilhava no céu estrelado. "Podemos fugir assim mais vezes?" Laura disse baixinho. Danie sorriu e a beijou, sem pressa. "Sempre que você quiser." Danie respondeu. Elas ficaram abraçadas pelo resto da noite. Os beijos as conectavam e todo o mundo lá fora desaparecia.
"Dan, eu estou cansada de tentar. As pessoas são vazias e cruéis, precisamos ser também."
"Não precisamos não. Eu não consigo explicar, Laura." Danie pegou em sua mão. "Quando eu disse que amava você, eu sabia das consequências."
"Eu não posso machucar mais ninguém. Me perdoe, mas não posso deixar que isso aconteça." Ela puxou a mão de volta.
"Laura, entenda! É isso que eu quero, você não está me machucando menos fazendo isso." Elas se olharam. Laura levantou-se da mesa. "Eu amo você. Então seja corajosa, me ame de volta. Só eu e você."
Os olhos de Laura estavam marejados. No fundo, ela sabia que precisava do abraço daquela garota que estava sentada a sua frente. Mas ela era forte e agarrou-se naquilo que criara. "Desculpe." Foi tudo o que pôde dizer. E partiu, na chuva.
O cheiro do café se tornara insuportável. Danie estava mais uma vez sozinha e o vazio era tudo que ela tinha. Ela queria abraçar aquela garota e dizer pra ela que tudo ficaria bem, que elas podiam caminhar torto juntas. Um grito no escuro.